domingo, 19 de junho de 2016

19 de junho: Dia Mundial de Conscientização da Doença Falciforme

A Assembleia Geral das Nações Unidas estabeleceu o dia 19 de junho como o Dia Mundial de Conscientização sobre a Doença Falciforme, com o objetivo de dar visibilidade e reduzir as taxas de morbidade e mortalidade da doença. Apesar de existirem cerca de 60 mil pessoas no Brasil vivendo com Doença Falciforme, poucas pessoas conhecem ou já ouviram falar sobre ela. A Doença Falciforme (DF) é genética e hereditária, caracterizada por uma alteração nos glóbulos vermelhos do sangue (hemácias). Na pessoa com DF, em período de crise, a hemácia modifica o seu formato: de arredondada para o formato de foice, o que acaba dificultando a circulação de oxigênio nos tecidos. Os principais sinais da doença são dores crônicas, infecções e icterícia, e ocorrem já no primeiro ano de vida. Apesar de particularidades que as distinguem e de graus variados de gravidade, as diferentes formas da Doença Falciforme caracterizam-se por numerosas complicações que podem afetar quase todos os órgãos e sistemas, com expressiva morbidade, redução da capacidade de trabalho e da expectativa de vida, necessitando de identificação e tratamento precoce. Identificada precocemente na triagem neonatal, no teste do pezinho, na Atenção Básica, o exame de eletroforese de hemoglobina que identifica a doença, também é preconizado para todas as gestantes pela Rede Cegonha, e na triagem de doadores de sangue. Entretanto, a partir do 4º mês de vida qualquer pessoa pode ter acesso ao exame. É crucial que o tratamento seja iniciado o mais cedo possível. Segundo o Programa Nacional de Triagem Neonatal – PNTN/MS, em 2015, foram diagnosticados 1.149 casos novos de doença falciforme e 65.796 heterozigotos para Hemoglobina S (traço falciforme). Apenas 20% destas crianças atingem os cinco anos de idade caso não recebam o devido tratamento. Toda a medicação necessária para minimizar as complicações da doença, e melhorar a qualidade de vida dessas pessoas, é oferecida pelo Sistema Único de Saúde (ácido fólico, analgésicos, antinflamatórios e antibióticos). Através de compra centralizada, o Ministério da Saúde disponibiliza a penicilina oral, medicamento usado para evitar possíveis infecções oportunistas, e que deve ser tomado todos os dias, até os cinco anos de vida. O exame preventivo de Dopller Trancraniano que identifica o risco de AVC em pessoas com DF, de 02 a 17 anos, também é ofertado na rede pública. Todos os estados brasileiros possuem pelo menos um centro especializado para atender a pessoa com doença falciforme que deve ser matriculada em um programa de atenção integral. Atualmente, o SUS passou a realizar o transplante de medula óssea para pessoas com DF até 16 anos e que atendam aos critérios clínicos. A busca por visibilidade à Doença Falciforme foi uma luta do movimento negro e pelas pessoas com a doença, organizadas em associações. A predominância da doença é maior entre pretos e pardos, mas não é exclusiva desse grupo populacional. Links úteis e mais informações: Política Nacional de Atenção Integral às Pessoas com Doença Falciforme: Portaria n° 1.391 MS/GM. PDF do guia “Doença Falciforme: diretrizes básicas da linha de cuidado” Biblioteca Virtual em Saúde NUPAD Aline Czezacki, para o Blog da Saúde. Com informações da Coordenação-Geral de Sangue e Hemoderivados do Ministério da Saúde (MS).

sábado, 18 de junho de 2016

Dia Internacional Nelson Mandela

Por Por Rainer Sousa Graduado em História em 12 de Julho de 2013 Nelson Mandela O líder sul-africano Nelson Mandela foi um dos mais importantes sujeitos políticos atuantes contra o processo de discriminação instaurado pelo apartheid, na África do Sul, e se tornou um ícone internacional na defesa das causas humanitárias. Nascido em 18 de julho de 1918, na cidade de Transkei, Nelson Rolihlahla Mandela era filho único do casal Henry Mgadla Mandela e Noseki Fanny, que integrava uma antiga família de aristocratas da casa real de Thembu. Mesmo após ter suas posses e privilégios retirados pela ingerência da Coroa Britânica na região, a família viveu um período de tranquilidade, até quando Henry Mgadla faleceu inesperadamente, em ano de 1927. Com essa reviravolta em sua vida familiar, a mãe de Mandela se viu obrigada a deixar seu unigênito sob os cuidados de Jongintaba Dalindyebo, parente da família que tinha condições de zelar pela vida e a educação de Nelson Mandela. Nesse período de sua vida, o jovem Mandela teve oportunidade de ter uma ampla formação educacional influenciada pelos valores de sua própria cultura e da cultura européia. Com isso, o futuro ativista político conseguiu discernir como o pensamento colonial se ocupava em dizer aos africanos que eles deveriam se inspirar nos “ditames superiores” da cultura do Velho Mundo. Após passar pelas melhores instituições de ensino da época, o bem educado rapaz chegou à Universidade de Fort Hare. No ambiente universitário, Mandela teve oportunidade de tomar conhecimento da luta contra o apartheid promovida pelo Congresso Nacional Africano (CNA). Entretanto, antes de lutar contra o problema social que tomava seu país, Nelson Mandela se voltou contra as tradições de seu próprio povo ao não se sujeitar a um casamento arranjado. Mediante o impasse, o jovem se refugiou na cidade de Johannesburgo, onde trabalhou em uma imobiliária e, logo em seguida, em um escritório de advocacia. Vivendo nesta cidade, Mandela aprofundou ainda mais seu envolvimento com as atividades do CNA e deu continuidade aos seus estudos no campo do Direito. No ano de 1942, com o apoio de companheiros como Walter Sisulu e Oliver Tambo, fundou a Liga Jovem do CNA. Na década de 1950, os ativistas aliados à Mandela resolveram realizar uma grande manifestação de desobediência civil onde protestavam contra as políticas segregacionistas impostas pelo governo do Partido Nacional. Essa grande manifestação política resultou na elaboração da Carta da Liberdade, importante documento de luta onde a população negra oficializava sua indignação. Em 1956, as autoridades prenderam Nelson Mandela e decidiram condená-lo à morte pelo crime de traição. No entanto, a repercussão internacional de sua prisão e julgamento serviram para que o líder ficasse em liberdade. Depois disso, Mandela continuou a conduzir os protestos pacíficos contra a ordem estabelecida. Em março de 1960, um trágico episódio incitou Nelson Mandela a rever seus meios de atuação política. Naquele mês, um protesto que tomou conta das ruas da cidade de Sharpeville resultou na morte de vários manifestantes desarmados. Depois disso, Nelson Mandela decidiu se empenhar na formação do “Lança da Nação”, um braço armado do CNA. Naturalmente, o governo segregacionista logo saiu em busca dos líderes dessa facção e, em 5 de agosto de 1962, Mandela foi mais uma vez preso. Após enfrentar um processo judicial, Mandela foi condenado à prisão perpétua, pena que cumpriria em uma ilha penitenciária localizada a três quilômetros da cidade do Cabo. Nos vinte e sete anos seguintes, Mandela, o preso “466/64”, ficou alheio ao mundo exterior e vivia o desafio de esperar pelo tempo em sua cela. Nessa época, consolidou uma inesperada amizade com James Gregory, carcereiro da prisão que se impressionou com os valores e a dignidade de seu vigiado. Nesse meio tempo, após a desarticulação do movimento antiapartheid, novos movimentos de luta surgiram e a comunidade internacional se mobilizou contra a sua prisão. Somente em 1990 – sob a tutela do governo conciliador do presidente Frederik Willem de Klerk – Nelson Mandela foi liberto e reconduziu o processo que deu fim ao apartheid na África do Sul. Em 1992, as leis segregacionistas foram finalmente abolidas com o apoio de Mandela e Willem de Klerk. No ano seguinte, a vitória política lhe concedeu o prêmio Nobel da Paz e, em 1994, foram organizadas as primeiras eleições multirraciais da África do Sul. A vitória eleitoral de Nelson Mandela iniciou o expurgo das práticas racistas do Estado africano e rendeu grande reconhecimento internacional à Mandela. Depois de cumprir mandato, em 1999, Mandela atuou em diversas causas humanitárias. Ainda hoje, o líder sul-africano exerce grande papel na luta contra a AIDS.

sexta-feira, 17 de junho de 2016

Dia Internacional da Criança Africana

Próximo Dia Internacional da Criança Africana 16 de Junho de 2017 (Sexta-feira) O Dia Internacional da Criança Africana celebra-se a 16 de junho. Comemorado 15 dias depois do Dia Mundial da Criança, o Dia Internacional da Criança Africana chama a atenção para a realidade de milhares de crianças africanas que todos os dias são vítimas de violência, exploração e abuso. Este dia é celebrado a 16 de junho já que foi neste dia, em 1976, que se registou o massacre do Soweto, em Joanesburgo, na África do Sul. Milhares de estudantes saíram à rua em protesto contra a fraca qualidade de ensino e contra o ensino da língua Afrikaans (usada apenas pela minoria branca do país) e não da sua língua materna. A manifestação, que se queria pacífica, acabou por ser alvo de repressão policial e por resultar em semanas de motins, com centenas de mortos, sobretudo crianças e adolescentes. É em memória das crianças africanas mortas a 16 de junho de 1976 e em prol das crianças africanas do presente e do futuro que se instituiu em 1991 o Dia Internacional da Criança Africana. Todos os anos este dia merece a atenção da UNICEF e de outras organizações mundiais que organizam eventos variados tendo em vista a defesa dos direitos da criança em África e no mundo.Fonte:wikipedia

sábado, 11 de junho de 2016

CALENDÁRIO NEGRO MÊS JUNHO

01 – Inauguração do Memorial Zumbi dos Palmares, em Volta Redonda, RJ. O Memorial Zumbi dos Palmares, projetado e assinado pelo Arquiteto Selso Dal Bello, foi inaugurado em 01/06/1990 para ser um centro cultural destinado a resgatar os valores da cultura africana e promover ações afirmativas. Nele são realizadas as atividades culturais e esportivas, como dança afro e capoeira, além de encontros e seminários promovidos pelo movimento negro da região. No local, existe uma estátua do Zumbi dos Palmares, construído em aço projetado pelo artista plástico Rogero Manson. No local também pode ser admirado um painel com motivos da cultural afro, de incomparável beleza, de autoria do artista plástico da região sul-fluminense, professor Clécio Penedo. No salão tem exposições, também se pode ver um interessante trabalho fotográfico sobre os quilombos de Santa Isabel do Rio Preto e Quatis, de autoria do fotógrafo e estudioso da cultura afro, André Sodré. O memorial foi tombado pelo Decreto Municipal n° 4.317 de 29/12/92. Fonte: http://www.portalvr.com/smc/index.php/espacos-culturais/memorial-zumbi 05 – Dia Mundial do Meio Ambiente, criado pela Resolução nº 2.994, da Assembleia Geral da ONU, em 1972. 10 – Morre o Jamaicano Marcus Garvey, mentor do Pan-Africanismo, em 1940. Completou-se 65 anos da morte do líder Marcus Mosiah Garvey, considerado um dos pais do Pan Africanismo. O caçula de 11 irmãos nasceu em Saint Ann Bay, Jamaica, no dia 17 de agosto de 1887. Seu drama já começa cedo, tendo que conviver com a morte de 9 de seus irmãos, devido às condições socioeconômicas da família. Apesar de ser considerado ótimo aluno na escola elementar de Saint Ann Bay, sua vida, tem um impulso quando seu padrinho, Alfred Burrowes, proprietário de uma pequena gráfica, começa a dar aulas particulares e ceder livros para sua formação intelectual. Outra grande influência é de seu pai, um membro da maçonaria jamaicana, que também tem sua pequena biblioteca, frequentada pelo filho quase que diariamente. A infância de Marcus foi simples para padrões da Jamaica. Nadava e praticava esportes com garotos de sua idade. Mas aos 14 anos acaba se apaixonando por uma vizinha da mesma idade e a proibição da família dela de que mantenham os laços, através de correspondências, o marca profundamente como o primeiro ato de discriminação. Na mesma época, Garvey inicia-se na vida profissional como aprendiz de gráfico. Aos 19 anos, Marcus vai tentar a vida na grande cidade de Kingston onde passa a trabalhar na empresa P.A. Benjamin Limitad. Devido ao seu desempenho, no ano seguinte já é promovido a impressor e contramestre. Mas sua consciência critica o leva participar em 1908 de sua primeira greve. É demitido e nenhuma outra gráfica, num acordo informal – o contrata. Só consegue emprego numa gráfica pertencente ao governo jamaicano. O militante negro começou sua carreira de jornalista através do jornal Watchman e depois escreve para o respeitado National Club Of Jamaica. No ano de 1910, Marcus tem sua primeira chance de viajar para o exterior, indo para Costa Rica, como fiscal de plantações de banana. No campo, percebeu as péssimas condições de vida dos trabalhadores negros. Sua indignação aumentou ao visitar a Guatemala, Panamá, Nicarágua, Equador, Chile e Peru onde trabalhadores de outras etnias eram explorados. Cansado de só assistir, Marcus, publica artigos nos jornais La Nacionale – Costa Rica e La Prensa no Panamá, mas sem obter repercussão. Ele é incompreendido nesses países e em sua terra natal. Dois anos depois Marcus muda-se para Londres, junto com sua irmã, Indiana, onde toma contato pela primeira vez, através dos emigrantes africanos, com a Arte e Cultura de diversas etnias da África. Também é na capital do império inglês, que o militante conhece noticias sobre a condição social dos afro americanos e o sistema de segregação vigente. Desse período a amizade que mais lhe influencia é a do nacionalista egípcio Duse Muhammad, autor do The African And Orient Review – que tem na proposta, a revisão na forma que a historia da África é contada até então. Também foi em Londres que tomou contato com a obra de Booker T. Washington – um dos pensadores do Movimento Pan Africano. Já de volta a Jamaica, no dia 1 de agosto, Marcus funda a Universal Negro Improvement Association – que ficou conhecida como UNIA – com o lema – Um Deus, Uma Inspiração, Um destino! A Organização Não Governamental tinha como objetivos; promover a consciência negra, lutar pelo desenvolvimento econômico da África, e incentivar a criação de estabelecimentos de ensino negros que ensinassem também línguas africanas. A sede humilde da entidade foi no numero 30 da Rua Charles, em Kingston. Depois a entidade se mudou para a Rua king, no prédio chamado Liberty Hall. Mas o sucesso não foi imediato, pois seus compatriotas negros, não acreditavam em suas idéias. Garvey respondia que eles queriam mesmo é continuar tentando serem reconhecidos como cidadãos brancos. Em 1916, Marcus parte para os Estados Unidos, para se encontrar com o seu considerado mentor, Booker Washington, que infelizmente devido a problemas de saúde, falece antes de reencontrar o pupilo. Mas em terras norte-americanas, Marcus passa a divulgar suas idéias em forma de palestras, viajando pelos Estados Unidos a convite de comunidades negras. Na terra dos ianques, a ONG UNIA aumenta seus filiados e subsedes, alcançando o numero de 1.100, em mais de 40 paises. Existiam escritórios da entidade nas Américas Central e do Sul e África. No Harlem, bairro pobre de Nova Iorque, ele publica pela primeira vez o jornal Negro World, com idéias revolucionárias de nacionalismo negro. O periódico chegou distribuir 50 mil exemplares por edição. Na influencia do Negro World, surgiram outras publicações nos Estados Unidos – The Daily Negro Times, The Blackman, The Jamaican e The Black Man Magazine. Ele escrevia “para cima, você raça poderosa, você pode realizar o que quiser”. No dia 18 de agosto de 1920, Marcus é eleito simbolicamente presidente provisório da África, onde ele aproveita a cerimônia para denunciar a situação de miserabilidade dos países africanos e das ex-colônias europeias na América. Mas Garvey era proibido de pisar nos países africanos ou em colônias ingleses, devido sua fama de revolucionário. Mesmo assim chega a redigir e divulgar uma Declaração Universal dos Direitos dos Negros. Era considerado um excelente orador, pregando o orgulho negro e o desenvolvimento econômico da África, com ajuda de todos afro-descendentes espalhados pelo mundo. Um conceito correspondente ao nacionalismo dos judeus que depois conseguiram fundar Israel, ocupando a Palestina. Garvey dizia “Somos descendentes de um povo sofrido”. Somos os descendentes de um povo decidido a não mais sofrer. Etiópia “é a terra de nossos pais”. Uma idéia defendida por rastafaris. Os seguidores de Marcus eram denominados garveistas, que defendia inclusive o questionamento da Bíblia Sagrada, alegando que há uma deturpação das escrituras sagradas do aramaico, quando descreve, Adão, Abrão e Jesus, como brancos. Até uma versão negra da bíblia foi editada – Holy Piby. Nos Estados Unidos, Garvey funda a Line Black Star – uma companhia de navios a vapor, que tinha uma linha entre Estados Unidos e Jamaica – destinada só para passageiros negros. O negocio se revelou rentável, movimentando em seu auge milhões de dólares e despertando inveja dos concorrentes. Mas em 1922 acabou falindo, num caso mal explicado de suposta fraude do correio e levando o líder para cadeia dois anos depois. Durante o julgamento ele dispensou ajuda do advogado, se encarregando sozinho de sua defesa judicial. Mas foi condenado em 1925, com a pena reduzida, pelo presidente Calvin Cooligde, em troca de sua deportação para a Jamaica. Esse evento acaba abalando sua reputação, e da UNIA, mas permanece em militância até sua morte em 1940, em Londres, de pneumonia, após dois derrames. Seu corpo é embalsamado e enterrado no cemitério Kendal Green. Somente em 1964 teve sue trabalho reconhecido na Jamaica, nomeado herói nacional, e seu corpo transladado e colocado no National Heroes Park. Desde 1980 é figura reconhecida na sala de heróis da Organização dos Estados Americanos. Hoje existem nos Estados Unidos e na Jamaica, prédios, faculdades e até ruas com seu nome. Prevendo o destino da luta negra após sua morte, Garvey disse “eu sou só o precursor de uma África acordada que deve nunca mais voltar a dormir”. Marco Antonio dos Santos, 35, militante negro, membro do Conselho Estadual de Desenvolvimento e Participação da Comunidade Negra de São Paulo. http://marconegro.blogspot.com.br/2005/06/marcus-mosiah-garvey,html? 16 – Dia Internacional de Solidariedade à Luta do Povo da África do Sul, instituído pela ONU, dado ao levante de Soweto, em 1976, quando estudantes foram massacrados por manifestarem-se contra a obrigação da língua africânder. 21 – Nasce, em 1930, Luiz Gama, jornalista, poeta e um dos gigantes da causa abolicionista, filho da africana nagô Luiza Mahin. Luiz Gonzaga Pinto da Gama nasceu no dia 21 de junho de 1830, no estado da Bahia. Era filho de um fidalgo português e de Luiza Mahin, negra livre que participou de diversas insurreições de escravos. Em 1840 foi vendido como escravo pelo pai para pagar uma dívida de jogo. Transportado para o Rio de Janeiro, foi comprado pelo alferes Antônio Pereira Cardoso e passou por diversas cidades de São Paulo até ser levado ao município de Lorena. Em 1847, quando tinha dezessete anos, Luiz Gama foi alfabetizado pelo estudante Antônio Rodrigues de Araújo, que havia se hospedado na fazenda de Antônio Pereira Cardoso. Aos dezoito anos fugiu para São Paulo. Em 1848 alistou-se na Força Pública da Província ou Corpo de Força da Linha de São Paulo, entidade na qual se graduou cabo e permaneceu até o ano de 1854 quando deu baixa por um incidente que ele classificou como “suposta insubordinação”, já que apenas se limitara a responder insulto de um oficial. Em 1850 casou-se e tentou frequentar o Curso de Direito do Largo do São Francisco – hoje denominada Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. Por ser negro, enfrentou a hostilidade de professores e alunos, mas persistiu como ouvinte das aulas. Não concluiu o curso, mas o conhecimento adquirido permitiu que atuasse na defesa jurídica de negros escravos Na década de 1860 destacou-se como jornalista e colaborador de diversos periódicos progressistas. Projetou-se na literatura em função de seus poemas, nos quais satirizava a aristocracia e os poderosos de seu tempo. Hoje, é reconhecido como um dos grandes representantes da segunda geração do romantismo brasileiro, mas na época enfrentou a oposição dos acadêmicos conservadores.. Luiz Gama foi um dos maiores líderes abolicionistas do Brasil. Sempre esteve engajado nos movimentos contra a escravidão e a favor da liberdade dos negros. Em 1869, fundou com Rui Barbosa o Jornal Radical Paulistano. Em 1880 foi líder da Mocidade Abolicionista e Republicana. Devido a sua luta a favor da libertação dos escravos era hostilizado pelo Partido Conservador e chegou a ser demitido do cargo de amanuense por motivos políticos. Nos Tribunais, usando de sua oratória impecável e seus conhecimentos jurídicos, conseguiu libertar mais de 500 escravos, algumas estimativas falam em 1000 escravos. As causas eram diversas, muitas envolviam negros que podiam pagar cartas de alforria, mas eram impedidos pelos seus senhores de serem libertos, ou que haviam entrado no território nacional após a proibição do tráfico negreiro em 1850. Luiz Gama também ganhou notoriedade por defender que ao matar seu senhor, o escravo agia em legítima defesa. Faleceu em 24 de agosto de 1882 e foi sepultado no Cemitério da Consolação, na presença de 3.000 pessoas numa São Paulo de 40.000 habitantes. O poeta Raul Pompéia (1863-1895) imortalizou Luiz Gama e seus feitos escrevendo na ocasião: "(...) não sei que grandeza admirava naquele advogado, a receber constantemente em casa um mundo de gente faminta de liberdade, uns escravos humildes, esfarrapados, implorando libertação, como quem pede esmola; outros mostrando as mãos inflamadas e sangrentas das pancadas que lhes dera um bárbaro senhor; outros... inúmeros. E Luís Gama os recebia a todos com a sua aspereza afável e atraente; e a todos satisfazia, praticando as mais angélicas ações, por entre uma saraivada de grossas pilhérias de velho sargento. Toda essa clientela miserável saía satisfeita, levando este uma consolação, aquele uma promessa, outro a liberdade, alguns um conselho fortificante. E Luís Gama fazia tudo: libertava, consolava, dava conselhos, demandava, sacrificava-se, lutava, exauria-se no próprio ardor, como uma candeia iluminando a custa da própria vida as trevas do desespero daquele povo de infelizes, sem auferir uma sobra de lucro...E, por essa filosofia, empenhava-se de corpo e alma, fazia-se matar pelo bom...Pobre, muito pobre, deixava para os outros tudo o que lhe vinha das mãos de algum cliente mais abastado." Fonte: http://institutoluizgama.org.br/portal/index.php?option=com_content&view=section&layout=blog&id=6&Itemid=41 21 – Nasce Machado de Assis, o maior romancista brasileiro, fundador da Academia Brasileira de Letras. Machado de Assis nasceu em 21 de junho de 1839, no Morro do Livramento, no Rio de Janeiro, então capital do Império, em pleno Período Regencial. Seus pais foram Francisco José de Assis, um mulato que pintava paredes, filho de escravos alforriados e Maria Leopoldina da Câmara Machado, lavadeira portuguesa dos Açores. Ambos eram agregados da Dona Maria José de Mendonça Barrozo Pereira, esposa do falecido senador Bento Barroso Pereira, que abrigou seus pais e os permitiu morar junto com ela. As terras do Livramento eram ocupadas pela chácara da família de Maria José e já em 1818 o terreno começou a ser loteado de tão imenso que era, dando origem à Rua Nova do Livramento. Maria José tornou-se madrinha do bebê e Joaquim Alberto de Sousa da Silveira, seu cunhado, tornou-se o padrinho, de modo que os pais de Machado resolveram homenagear os dois nomeando-o com seus nomes. Nascera junto a ele uma irmã, que morreu jovem, aos 4 anos, em 1845. Iniciou seus estudos numa escola pública da região, mas não se mostrou interessado por ela. Ocupava-se também em celebrar missas, o que lhe fez conhecer o Padre Silveira Sarmento, que, segundo certos biógrafos, se tornou seu mentor de latim e amigo. Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Machado_de_Assis 24 – Nasce, em 1890, João Cândido, o “Almirante Negro”, líder da Revolta da Chibata. Por Ana Paula de Araújo João Cândido Felisberto nasceu no Rio Grande do Sul, no dia 24 de Junho de 1880. Seus pais eram escravos, ele desde pequeno costumava acompanhar seu pai quando este viajava conduzindo o gado. João Cândido começou sua participação política cedo, aos 13 anos apenas, quando lutou a serviço do governo na Revolução Federalista do Rio Grande do Sul, no ano de 1893. Com 14 anos se alistou no Arsenal de Guerra do Exército e com 15 entrou para a Escola de Aprendizes Marinheiros de Porto Alegre. Cinco anos depois foi promovido a marinheiro de primeira classe e com 21 anos, em 1903, foi promovido a cabo de esquadra, tendo sido depois novamente rebaixado a marinheiro de primeira classe por ter introduzido no navio um jogo de baralho. Serviu na Marinha do Brasil por 15 anos, tempo durante o qual viajou por este e outros países. Participou e comandou a Revolta dos Marinheiros do Rio de Janeiro (Revolta da Chibata) no ano de 1910, movimento que trouxe benefícios aos marinheiros, com o fim dos castigos corporais na Marinha, mas que trouxe prejuízos a João Cândido, que foi expulso e renegado, vindo a trabalhar como timoneiro e carregador em algumas embarcações particulares, sendo depois demitido definitivamente de todos os serviços da Marinha por intervenção de alguns oficiais. No ano de 1917, ano em que sua primeira esposa faleceu, começou a trabalhar como pescador para sustentar a família, vivendo na miséria até os seus últimos dias de vida. Casou-se novamente, mas sua segunda esposa cometeu suicídio no ano de 1928. Dez anos depois a tragédia voltaria a acontecer, mas desta vez com uma de suas filhas. Ao todo foram três casamentos, tendo o último durado até o fim de sua vida, dia 06 de Dezembro de 1969. Atuou na política durante toda a sua vida. Durante o governo de Vargas teve contato com o líder da Ação Integralista Brasileira (AIB) e com o Partido Comunista, chegou a ser preso por suspeita de relacionamento com os integrantes da Aliança Liberal e até o fim da sua vida continuou sendo “vigiado” pelas autoridades, sendo acusado de subversivo. O “Almirante Negro”, como João Cândido ficou conhecido, morreu aos 89 anos e teve ao todo 11 filhos ao longo dos três casamentos. Faleceu na cidade de São João do Meriti, no Rio de Janeiro. Fonte: http://www.infoescola.com/biografias/joao-candido/ 25 – Independência de Moçambique, em 1975. 25 – Fundação da Frente de Libertação de Moçambique, (FRELIMO), e 1962. 26 – Independência da Somália, em 1960. 26 – Dia Internacional de Apoio às Vítimas de Tortura, instituído pela ONU, em 26 de junho. A data foi instituída pela Organização das Nações Unidas em 1997, sendo realizada no mesmo dia em que foi assinada a Convenção contra a Tortura, criada em 26 de junho de 1987, por parte dos Estados-membros da Organização. O objetivo da data é, além de apoiar as vítimas dessa repulsiva prática, combater a execução de atos de tortura por parte dos órgãos repressivos dos Estados. Segundo Ban Ki-moon, Secretário-Geral da ONU, em seu discurso referente à data em 2012, “todos os dias, mulheres, homens e crianças são torturadas ou maltratadas com a intenção de destruir sua dignidade e seu sentimento de valor humano. Em alguns casos, isto faz parte de uma política de Estado para fomentar o medo e intimidar a população”. Nesse sentido, uma das principais ações com a instituição dessa data é criar condições de amparo solidário, material e psicológico às vitimas de torturas e maus-tratos, principalmente através de apelos para que os Estados se prontifiquem a atuar para a erradicação dessa prática. Apesar de ser combatida, a tortura é praticada em diversos países, inclusive, em alguns casos, ela é aplicada sistematicamente como política repressiva e de investigação. No caso específico da América do Sul, ela foi adotada por todos os regimes comandados por militares durante o século XX. Um dos principais difusores dessas práticas foram as Forças Armadas Brasileiras, que ensinaram diversas técnicas de tortura às demais forças militares estatais da América do Sul, com o objetivo de exterminar as forças políticas opositoras a esses regimes. Atualmente, a tortura ainda é uma medida de obtenção de confissões comumente adotada em delegacias e batalhões militares, evidenciando que essa prática ainda não está extinta no país. Frente a todas essas situações, a lembrança e o combate que estão revestidos na proclamação do Dia Internacional de Apoio às Vítimas de Tortura ainda se fazem necessários, até que práticas que ataquem a integridade física e a dignidade psicológica das pessoas não se façam mais presentes. Fonte: http://mundoeducacao.bol.uol.com.br/datas-comemorativas/dia-internacional-apoio-as-vitimas-tortura.htm 26 – Morre Tobias Barreto, na cidade de Recife, em 1889. Tobias Barreto (1839-1889) foi filósofo, escritor e jurista brasileiro. Foi o líder do movimento intelectual, poético, crítico, filosófico e jurídico, conhecido como Escola do Recife, que agitou a Faculdade de Direito do Recife. Patrono da cadeira nº 38 da Academia Brasileira de Letras. Tobias Barreto (1839-1889) nasceu na Vila de Campos do Rio Real, hoje Tobias Barreto, no estado de Sergipe, no dia 7 de junho de 1839. Filho de Pedro Barreto de Menezes e de Emerenciana Barreto de Menezes. Iniciou os estudos em sua cidade natal. Em 1861 mudou-se para a Bahia, ingressou no seminário, não se adaptou, passou só uma noite. Mudou-se para uma república de amigos em Salvador. Estudou filosofia e matérias preparatórias. Quando o dinheiro acabou, voltou para Vila de Campos. Viveu alguns anos lecionando Latim em Itabaiana, Sergipe. Em 1863 mudou-se para o Recife, com o objetivo de ingressar na Faculdade de Direito. O ambiente na cidade era muito intelectualizado e dominado pelos estudantes do curso jurídico. Entre os alunos estavam Rui Barbosa, Joaquim Nabuco e Castro Alves, que se tornou seu amigo. Se submeteu ao concurso para ensinar Latim no Ginásio Pernambucano, ficando em segundo lugar. Em 1867 concorreu para a vaga de professor de Filosofia no mesmo Ginásio, é classificado mas não é escolhido. Tobias Barreto procurava esquecer sua origem humilde, mas se achava descriminado pela cor da pele. Tentou casar com Leocádia Cavalcanti, mas não foi aceito pela família aristocrática da moça. Apaixonou-se por Adelaide do Amaral, artista portuguesa e casada. Declamava versos cheios de amor e mantinha duelos poéticos com Castro Alves. Casou-se com a filha de um dono de engenho e proprietário de terras da cidade de Escada. Depois de formado, passou dez anos morando na pequena cidade pernambucana, na zona açucareira. Dedicou-se à advocacia. Foi eleito para a assembleia Provincial de Escada. Mantinha um jornal, no qual imprimiu vários livros. A sua contribuição filosófica e científica foi de grande importância, uma vez que contestou as linhas gerais do pensamento jurídico dominante e tentou fazer um entrosamento entre a filosofia e o direito, propagando os estudos de Darwin e de Haeckel. Apesar de ter vivido até as vésperas da República, não se envolveu nos movimentos republicanos. Voltou para o Recife, onde passou a lecionar na Faculdade de Direito. Hoje a Faculdade é consagrada como "A Casa de Tobias". Tobias Barreto de Meneses morreu no Recife, Pernambuco, no dia 26 de junho de 1889. Fonte: https://www.ebiografia.com/tobias_barreto/ 28 – Dia Mundial do Orgulho Gay Rebelião de Stonewall foi uma série de violentas manifestações espontâneas de membros da comunidade LGBT contra uma invasão da polícia, que aconteceu nas primeiras horas da manhã de 28 de junho de 1969, no Stonewall Inn, localizado no bairro Greenwich Village de Manhattan, Nova York, Estados Unidos. Os motins são amplamente considerados como o evento mais importante que levou ao movimento moderno de libertação gay e à luta pelos direitos LGBT no país. Os homossexuais estadunidenses das décadas de 1950 e 1960 enfrentavam um sistema jurídico anti-homossexuais. Os primeiros grupos homófilos do país tentavam provar que os gays poderiam ser assimilados pela sociedade e que apoiavam um sistema educacional não-confrontacional para homossexuais e heterossexuais igualmente. Os últimos anos da década de 1960, no entanto, foram muito controversos, visto que muitos movimentos sociais estavam ativos ao mesmo tempo, como o movimento dos direitos civis dos negros nos Estados Unidos, a contracultura dos anos 1960 e as manifestações contra a guerra do Vietnã. Estas influências, juntamente com o meio ambiente liberal da região de Greenwich Village, serviram como catalisadores para as revoltas de Stonewall. Muito poucos estabelecimentos recebiam pessoas abertamente homossexuais nos anos 1950 e 1960. Aqueles que faziam isto eram frequentemente bares, embora os donos e gerentes raramente fossem gays. Na época, o Stonewall Inn era propriedade do grupo mafioso Cosa Nostra Americana. Ele recebia uma grande variedade de clientes e era conhecido por ser popular entre as pessoas mais pobres e marginalizados da comunidade gay: drag queens, transgêneros, homens efeminados jovens, lésbicas masculinizadas, prostitutos e jovens sem-teto. As batidas policiais em bares gays eram rotina na década de 1960, mas os oficiais rapidamente perderam o controle da situação no Stonewall Inn. Eles atraíram uma multidão que foi incitada à revolta. As tensões entre a polícia de Nova York e os residentes homossexuais de Greenwich Village irromperam em mais protestos na noite seguinte e, novamente, em várias noites posteriores. Dentro de semanas, os moradores do bairro rapidamente organizaram grupos de ativistas para concentrar esforços no estabelecimento de lugares que gays e lésbicas pudessem frequentar sem medo de serem presos. Depois dos motins de Stonewall, gays e lésbicas em Nova York ainda enfrentaram obstáculos geracionais e de gênero, raça e classe social para se tornar uma comunidade coesa. Dentro de seis meses, duas organizações ativistas gays foram formadas em Nova York, concentrando-se em táticas de confronto, e três jornais foram estabelecidos para promover os direitos para gays e lésbicas. Dentro de alguns anos, várias organizações de direitos gays foram fundadas em todos os Estados Unidos e no resto do mundo. Em 28 de junho de 1970, as primeiras marchas do orgulho gay aconteceram em Nova York, Los Angeles, São Francisco e Chicago, em comemoração ao aniversário dos motins. Marchas semelhantes foram organizadas em outras cidades. Hoje, os eventos do orgulho LGBT são realizados anualmente em todo o mundo, geralmente no final de junho, para marcar as revoltas de Stonewall. Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Rebeli%C3%A3o_de_Stonewall

sábado, 28 de maio de 2016

Contra a cultura do estupro

O Conselho Municipal da Comunidade Negra de Caxias do Sul (COMUNE) vem de público demonstrar veementemente sua indignação pelo estupro coletivo ocorrido no RJ. Esse fato foi noticiado repetidamente por toda a mídia brasileira e de vários outros Países. Barbárie que traz à tona o machismo e sexismo existentes. A cultura de que mulher é objeto. Diminuída em seus valores, seu corpo e sua alma. Lutaremos contra a cultura do estupro e de todas as formas de violência contra a mulher. Exigimos justiça para esse e todos os outros crimes de violência. Sabemos que uma mulher é vítima de violência a cada seis minutos e a justiça nem sempre se mobiliza para executar as penas que devem receber os violentadores. Frente à certeza de que tudo podem contra uma mulher, os covardes criminosos agem, inclusive divulgando em redes sociais. A impunidade deve parar. Juntas, todas as mulheres, estaremos na luta, mais uma vez, por cadeia aos monstros violentadores.

terça-feira, 24 de maio de 2016

Ensina a teu filho

FREI BETTO - Artigo - 17/04/16, 08:13 O Estado de S. Paulo Ensina a teu filho que o Brasil tem jeito e que ele deve crescer feliz por ser brasileiro. Há neste país juízes justos, ainda que esta verdade soe como cacófato. Juízes que, como meu pai, nunca empregaram familiares, embora tivessem filhos advogados, jamais fizeram da função um meio de angariar mordomias e, isentos, deram ganho de causa também a pobres, contrariando patrões gananciosos ou empresas que se viram obrigadas a aprender que, para certos homens, a honra é inegociável. Ensina a teu filho que neste país há políticos íntegros como Antônio Pinheiro, pai do jornalista Chico Pinheiro, que revelou na mídia seu contracheque de parlamentar e devolveu aos cofres públicos jetons de procedência duvidosa. Saiba o teu filho que, no monolito preto do Banco Central, em Brasília, onde trabalham cerca de 3 mil pessoas, a maioria é honrada e, porque não é cega, indignada ante maracutaias de autoridades que deveriam primar pela ética no cargo que lhes foi confiado. Ensina a teu filho que não ter talento esportivo ou rosto e corpo de modelo, e sentir-se feio diante dos padrões vigentes de beleza, não é motivo para ele perder a autoestima. A felicidade não se compra nem é um troféu que se ganha vencendo a concorrência. Tece-se de valores e virtudes e desenha, em nossa existência, um sentido pelo qual vale a pena viver e morrer. Ensina a teu filho que o Brasil possui dimensões continentais e as mais férteis terras do planeta. Não se justifica, pois, tanta terra sem gente e tanta gente sem terra. Assim como a libertação dos escravos tardou, mas chegou, a reforma agrária haverá de se implantar. Tomara que regada com muito pouco sangue. Saiba o teu filho que os sem-terra que ocupam áreas ociosas e prédios públicos são, hoje, chamados de "bandidos", como outrora a pecha caiu sobre Gandhi sentado nos trilhos das ferrovias inglesas e Luther King ocupando escolas vetadas aos negros. Ensina a teu filho que pioneiros e profetas, de Jesus a Tiradentes, de Francisco de Assis a Nelson Mandela, são invariavelmente tratados, pela elite de seu tempo, como subversivos, malfeitores, visionários. Ensina a teu filho que o Brasil é uma nação trabalhadora e criativa. Milhões de brasileiros levantam cedo todos os dias, comem aquém de suas necessidades e consomem a maior parcela de sua vida no trabalho, em troca de um salário que não lhes assegura sequer o acesso à casa própria. No entanto, essa gente é incapaz de furtar um lápis do escritório, um tijolo da obra, uma ferramenta da fábrica. Sente-se honrada por não descer ao ralo que nivela bandidos de colarinho branco com os pés-de-chinelo. É gente feita daquela matéria-prima dos lixeiros de Vitória que entregaram à polícia sacolas recheadas de dinheiro que assaltantes de banco haviam escondido numa caçamba. Ensina teu filho a evitar a via preferencial dessa sociedade neoliberal que nos tenta incutir que ser consumidor é mais importante que ser cidadão, incensa quem esbanja fortuna e realça mais a estética que a ética. Saiba o teu filho que o Brasil é a terra de índios que não se curvaram ao jugo português e de Zumbi, de Angelim e frei Caneca, de madre Joana Angélica e Anita Garibaldi, dom Hélder Câmara e Chico Mendes. Ensina a teu filho que ele não precisa concordar com a desordem estabelecida e que será feliz se se unir àqueles que lutam por transformações sociais que tornem este país livre e justo. Então, ele transmitirá a teu neto o legado de tua sabedoria. Ensina teu filho a votar com consciência e jamais ter nojo de política, pois quem age assim é governado por quem não tem e, se a maioria tiver a mesma reação, será o fim da democracia. Que o teu voto e o dele sejam em prol da justiça social e dos direitos dos brasileiros imerecidamente tão pobres e excluídos, por razões políticas, dos dons da vida. Ensina a teu filho que a uma pessoa bastam o pão, o vinho e um grande amor. Cultiva nele os desejos do espírito. Saiba o teu filho escutar o silêncio, reverenciar as expressões de vida e deixar-se amar por Deus que o habita.

segunda-feira, 23 de maio de 2016

A situação colonial, ou a arrogância do colonizado

segunda-feira, 23 de maio de 2016 POR REDAÇÃO – ON 12/11/2015 CATEGORIAS: BRASIL, CULTURA, POLÍTICAS, POSTS Zoológicos humanos: entre 1877 e 1912, foram montadas, em Paris, cerca de trinta “exibições etnológicas” desse tipo Desprezo pelo Outro marca visão eurocêntrica há séculos. Mas Vargas Llosa alfineta: “A forma mais insidiosa de arrogância, a arrogância silenciosa, Casement a encontrou (…) no coração financeiro de Londres” Por Maria Stella Bresciani, na série Ensaios sobre a Arrogância “A expansão é tudo, disse Cecil A situação colonial, ou a arrogância do colonizador, deprimido ao ver no céu “estas estrelas (…) esses vastos mundos que nunca poderíamos atingir. ‘Se eu pudesse anexaria os planetas'” Hannah Arendt (1) O segundo texto da série “Ensaios sobre a Arrogância é de autoria de Maria Stella Bresciani professora emérita, uma das fundadoras do curso de História da Unicamp e criadora do Centro Interdisciplinar de Estudos da Cidade (CIEC). Stella recorta o tema da arrogância do colonizador no texto literário de Mário Vargas Llosa “O sonho do celta” atenta, em suas palavras, “ao poder de fixação de imagens e de percursos, no caso, históricos da escrita ficcional”. O livro de Llosa revela para a autora uma “dimensão facetada” pois fruto de vasta pesquisa documental em viagens ao Congo, à Amazônia, Irlanda, Estados Unidos, Bélgica, Peru, Alemanha e Espanha relativa ao percurso e aos registros do diplomata irlandês Roger Casement. Composta essa trajetória da arrogância colonial, Stella volta-se ao presente para acompanhar filósofos europeus motivados a refletir sobre os fluxos de imigração para a Europa. A autora problematiza o emprego das noções de cosmopolitismo, estrangeiro, alteridade, universalidade, multiculturalismo e cidadania. E termina o texto indagando-se sobre persistência de arrogância silenciosa e residual e de “eurocentrismo … em uma reflexão autoreferida para qual a base conceitual ainda se apresenta na figura do Outro”, ou seja, nas palavras de Balibar “que aceite preservar ou reconstituir a figura do ‘estrangeiro’” (Balibar, 2010 :45-46). (Myriam Bahia Lopes) Nada fácil aproximar-se da noção “arrogância” em suas várias implicações. As definições recolhidas por Yves Déloye em seu artigo “A arrogância do político” a circunscrevem a um traço de caráter que se explicita quando um indivíduo se arroga superioridade ou afirma diferença fundamental em relação a outro indivíduo, o despreza de maneira altaneira ou assume um comportamento de insolência e de desprezo. Trata-se de comportamento formado a partir de posições sociais rígidas em sociedades altamente hierarquizadas e perdura mesmo se passamos dos rituais do Antigo Regime aos da democracia representativa, e até quando numerosos pensadores do século XIX buscaram por fim ao exercício da força arbitrária e aos privilégios das elites. Encontra-se presente nas formas representativas ou democráticas de governo, nas esferas dirigentes das sociedades dos séculos XIX e XX do mundo ocidental. Modos insidiosos de manifestação de arrogância subsistiram e até as noções de civilidade e os rituais associados às normas civis das sociedades democráticas se viram desfigurados, explicitamente ou não, a fim de desculpar atitudes de extrema arrogância e de insolência depreciativa. Comportamentos arrogantes e cruéis, sentimentos por vezes fundados no pressuposto da inferioridade de certos grupos da população de seus territórios foram acobertados pelo silencio cúmplice de governos que fecharam seus olhos, se calaram e mantiveram uma indiferença em relação a eles. Reforçaram-se ainda, quando governantes encorajaram a exploração econômica genocida da população nativa das colônias em nítidas formas violentas e persistentes de manifestação de arrogância. A figura simbólica do Outro se encontra frequentemente no centro do comportamento arrogante daqueles que se recusavam e ainda se recusam a reconhecer até mesmo a humanidade dos que não “figuram” como seus semelhantes. Déloye apresenta os vários substantivos e verbos correlatos à palavra arrogância, sugere a possibilidade de explorar o amplo leque de significações que permanecem até hoje inalteradas, explora as duas dimensões aparentemente sedimentadas progressivamente no emprego do termo “arrogância” e as formas semânticas a ele associadas: uma dimensão descritiva (ou material) e uma dimensão simbólica (ou performativa) (2). Esta tipologia lhe permite se aproximar das configurações históricas e psicológicas que se encontram na base das atitudes ou das políticas de arrogância. Trago para este texto uma acepção do Outro, aquela que expõe de modo nítido a figura histórica do colonizado nos processos de colonização. Figurações instituídas pela arrogância, arma poderosa na expansão das áreas colonizadas e na montagem de impérios. Ao comentar que “Imperialismo não é construção de impérios e expansão não é conquista”, Hannah Arendt expõe uma das dimensões da “mentalidade imperialista”: Contrariamente às verdadeiras estruturas imperais, em que as instituições da nação-mãe se integram de várias maneiras às do império que criam, é característico do imperialismo permanecerem as instituições nacionais separadas da administração colonial, embora se lhes permita exercer controle. O verdadeiro motivo dessa separação estava na curiosa mistura de arrogância e respeito – a arrogância dos administradores que sabiam lidar com “populações atrasadas” ou “raças inferiores”, contrabalançada pelo respeito dos estadistas antiquados no país de origem, que acalentavam as ideias de que nenhuma nação tinha o direito de impor sua lei sobre um povo estrangeiro. A arrogância veio a ser um meio de domínio, enquanto o respeito idealista, tornado negativo, não produziu nenhuma nova forma de convívio entre os povos, mal conseguindo conservar dentro de certos limites as autoridades imperialistas que governavam por decretos. (Arendt, 2012: 198) (3) Autora de texto seminal para entendermos comportamentos pautados pela “arrogância”, Arendt enfrentou sérias resistências quando da publicação da trilogia The Origins of Totalitarianism, em 1949, ao reunir sob um mesmo epíteto ou denominação diversas formas brutais de desprezo pela dignidade humana. Suas reflexões impuseram o debate sobre a arrogância expressa na indiferença e no desprezo de parte de pessoas da alta hierarquia do exército e da burocracia governamental. Questão sensível lida por Yves Déloye nas duas dimensões propostas: descritiva (ou material) e simbólica (ou performativa). Busquei as dimensões propostas por ele em textos de autores contemporâneos, já que também eles ousaram enfrentar e expor a indiscutível atualidade desse tema sensível e por vezes visto como um tabu em suas próprias sociedades. Uma dimensão substantiva da arrogância em situação colonial Começo pela coletânea organizada por Marc Ferro, Le livre noir du colonialisme XVI ème-XXIème siècle: de l’extermination à la repentance (2003) 4. No livro, de cerca de 850 páginas, uma sequência de artigos acompanha a trajetória da empresa colonizadora nas Américas no século XVI, passa pelo tráfico de escravos africanos, pelo colonialismo na Ásia e na África do século XIX e chega aos difíceis processos de descolonização nos séculos XIX e XX. Autor do artigo “Une race condamnée. La colonisation et les aborigènes d’Australie”, Alastair Davidson retira a definição da palavra “coloniser” de The Universal Dictionary of the English Language de Henry C.K. Wyld (1870- 1945): 1) se estabelecer em um país, geralmente subdesenvolvido, longe de seu próprio país, e desenvolver os recursos agrícolas e outros: os ingleses e holandeses colonizaram a África do Sul. 2) Estabelecer pessoas em uma colônia com o objetivo de livrar deles a mãe-pátria, na esperança de que serão mais úteis no novo país: nos ordenam enviar nossos criminosos e indesejáveis para colonizar terras estrangeiras 5. Para o autor, esta classificação subtrai, em sua pretensa “objetividade”, “a ideologia dos Brancos e funda a ideia que eles próprios fazem da colonização da Austrália” (Davidson, 2003:69-99). Davidson propõe ultrapassar a “fronteira”, termo que designa o limite das terras colonizadas, para fixar em contraponto, a voz dos aborígenes e, a meu ver, faz o percurso pela dimensão descritiva “fixação simbólica e performativa da figura do colonizado”: Estamos sob a clara evidência de um povo que eles (os colonos) combateram e conquistaram. (…) Recusam nos reconhecer enquanto grupo distinto de pessoas – o povo aborígene oriundo desta terra. Quando a sobrevivência de um povo é ameaçada, ele contra-ataca. (…) não era, entretanto, do interesse do ministério do Interior britânico reconhecer que as tribos aborígenes formavam uma nação, de lhes conceder, portanto, um estatuto. No decorrer dos dois séculos posteriores a 1788, o povo foi maciçamente assassinado, violado, mutilado e destituído de suas terras tribais. (…) Hoje, constituímos a fração mais pobre do país 6 (Davidson, 2003:70) (tradução minha). As sérias consequências da atitude colonizadora, dimensão descritiva ou material, proposta por Déloye, se faziam ver nos domínios da saúde, da educação, da taxa de desemprego e do número dos prisioneiros. (Davidson, 2003:69-70, apud Irene Watson, The White Invasion Blooklet, Adélaïde, 1982) Afinal, não esqueçamos que a colonização da Austrália ocorreu em pleno “Século das Luzes”, tempo dos eruditos que lançaram as bases da proclamação dos “direitos do homem” e “da descoberta da racionalidade científica”. Eruditos imbuídos da intenção de descobrir as “leis naturais” que regiam o Universo e lançaram as sementes do movimento racista cientificista. Talvez surpreenda encontrar entre os filósofos do século XVIII opiniões contraditórias. Se Diderot denunciava a “barbárie europeia” ao afirmar criticamente que “civilizar” significava “tratar o mundo e os homens que o habitam como extensões desérticas onde se podia massacrar os povos”7, Voltaire era “declaradamente racista tanto em relação aos judeus como aos negros”, afirma Catherine Coquery-Vidrovitch 8. “Nos Negros, ele só via ‘animais’”, diz a autora e o cita: “Seus olhos redondos, o nariz achatado, lábios sempre grossos, orelhas de formatos diferentes, a lã de suas cabeças, a própria medida de suas inteligências, colocam entre eles e as outras espécies de homens diferenças prodigiosas” 9. Voltaire complementa ao sublinhar não serem essas características atribuíveis ao clima, pois quando transportados para países de clima frio, reproduziam-se identicamente e dos mulatos disse nada mais serem “do que uma raça bastarda” (Essai sur les moeurs). Se bem que menos agressiva, a figura do “bon sauvage” de Rousseau e a opinião de Hegel ao considerar que “os não europeus eram seres inferiores por não terem a plena consciência de seu ser” (Lectures on the Philosophy of World History, 1822-1828), não menos ajudaram a fixar a imagem simbólica dos não europeus, com forte poder performático: deram-lhe características de seres vivendo em “estado de inocência, um estado primitivo [que] de fato é um estado de animalidade” (Coquery- Vidrovitch, 2003:660-661)10. Não surpreende, portanto, reconhecer, em 1787, nas palavras de Thomas Jefferson, “diplomata e erudito relacionado aos meios revolucionários franceses”, redator da constituição dos Estados Unidos, a extensão ultramarina da atitude arrogante: Coloco, portanto, como dúvida a suspeita de que os negros, quer sejam originários de uma raça diferente ou que sua especificidade se deva ao tempo e às circunstâncias, são inferiores aos brancos tanto em seus dotes de corpo como de mente. (11) Posição que não impediu os “Pais fundadores” de nomearem “democracia” o novo país e ser ele reconhecido com tal, pelos contemporâneos. É bom lembrar as considerações de Alexis de Tocqueville, em 1840, ao avaliar a população dos Estados Unidos: Descobrem-se entre eles, à primeira vista, três raças naturalmente distintas, e poderia dizer quase inimigas. A educação, a lei, a origem e até a forma exterior dos traços, criaram entre elas uma barreira quase intransponível; (…) Entre aqueles homens tão diversos, o primeiro que atrai os olhares, o primeiro em saber, em força, em felicidade, é o homem branco, o europeu, o homem por excelência; abaixo dele surgem o negro e o índio. Essas duas raças infelizes não têm em comum nem o nascimento, nem a fisionomia, nem a língua, nem os costumes. (…) Não se poderia dizer, ao ver o que se passa no mundo, que o europeu é para os homens das demais raças o que o próprio homem é para os animais? Faz com que sirvam ao seu uso, e quando não os pode curvar, os destrói. Embora atribua a condição de “homem por excelência” ao colono europeu, Tocqueville reconhece ter sido a escravização do africano o motivo da perda de sua condição humana, assim como a progressiva ocupação do território norte-americano ter ocasionado a eliminação física dos indígenas: O negro dos Estados Unidos perdeu quase todos os privilégios da humanidade! O negro dos Estados Unidos perdeu até a lembrança de sua origem; (…) O negro não tem família (…) perdeu até a propriedade de sua pessoa. (…) O índio, pelo contrário, tem uma imaginação cheia da pretensa nobreza da sua origem. Vive e morre no meio desses sonhos do seu orgulho. Longe de querer curvar os seus costumes aos nossos, fixa-se à barbárie como se fosse um sinal distintivo de sua raça e repele a civilização menos ainda talvez por odiá-la que por temer parecer-se aos europeus. (…) Todas as tribos indígenas que outrora habitaram o território da Nova Inglaterra, os Narragansetts, os Moicanos, os Pecots, não mais vivem senão na lembrança dos homens. (…) À medida que os indígenas se afastam e morrem veem crescer em seu lugar, incessantemente, um povo imenso. Jamais se vira entre as nações um desenvolvimento tão prodigioso nem uma destruição tão rápida (12). Contudo, pode-se dizer que dos critérios de diferenciação postulados no século XVIII, o clima e a cultura como determinantes da raça, somente a raça subsistiu no século XIX (Coquery-Vidrovitch, 2003: 665). Penso, assim, ser importante sublinhar a longa e íntima relação entre a “cultura colonial” e os escritos dos pensadores dos séculos XVIII e XIX. Verifica-se uma cumplicidade solidária entre a construção da “cultura colonial” e os escritos dos naturalistas e filósofos, tais como Buffon, Montesquieu, Diderot, De Paw, entre outros. O estudioso Antonello Gerbi diz que “com Buffon, o eurocentrismo se afirma na nova ciência da natureza viva. E por certo não é mera coincidência que isso acontecesse exatamente quando a ideia da Europa se tornava mais plena, completa e galharda, como tampouco é gratuito que a Europa política e civil se definisse, então, em oposição à Ásia e à África, (…) e afrontasse impávida o mundo americano” (Gerbi, 1996: 37-41). As teorias da inferioridade dos não europeus persistiram para além da colonização das “wilderness” das Américas ao recobrir ações nas terras “bárbaras” ou carentes de “civilização” em outros continentes. Assim, se o livro de Arthur de Gobineau Essai sur l’inégalité des races humaines, publicado em 1853, somente no início do século XX “se tornaria fundamental para as teorias racistas da história”, como afirma Arendt (Origens do totalitarismo, 2012: p. 249), a teoria proposta por Charles Darwin teve seus adeptos já no século XIX. Coquery-Vidrovitch mostra que “a favor da vaga da expansão colonial da segunda metade do século, os sociólogos darwinistas fizeram da seleção natural das espécies um apoio para as implicações da conquista: a dominação e a destruição”. Afirmaram ser “normal e justificado o domínio dos povos inferiores pelos vencedores, mas também sua eliminação como modo a assegurar uma longa sobrevivência à espécie humana”. A autora reproduz as palavras de Darwin que, aliás, não deixam dúvidas sobre sua posição: “As raças humanas civilizadas quase certamente exterminarão e substituirão as raças selvagens em todo o mundo”13. (Coquery-Vidrovitch, 2003:665, apud Darwin. The descent of Man, 1888, p.159-160) As dimensões descritiva e simbólica da arrogância colonial Em 2008, outra coletânea dirigida por Pascal Blanchard, Sandrine Lemaire e Nicolas Bancel, oferece perspectivas críticas no mesmo sentido: Culture coloniale en France. De la Révolution française à nos jours14. No Prefácio, o antropólogo Gilles Boëtsch coloca uma indagação: A cultura colonial, uma cultura partilhada? O objetivo dos autores envolvidos em trabalho coletivo desde 1990 define-se, afirma Boëtsch, pela clara intenção de ir além “dos debates binários a respeito do ‘arrependimento’ ou dos ‘aspectos positivos’ da colonização”, já que os consideramos bastante deslocados da complexidade originária das questões em jogo quando se aborda o campo da cultura colonial.” Ao tratar deste tema central, ele reconhece a importância “da questão das heranças e das polêmicas que giram em torno de um passado colonial compartilhado obrigatoriamente, e “nos lembra que a história é mal partilhada com o Outro”. Para ele, seria justamente “o trabalho de integrar o “Outro” à história” o eixo constitutivo da coletânea (Boëtsch, 2008:7-9). Como reverter a perspectiva do olhar metropolitano? Como empreender o trabalho de “desconstrução de um conjunto de dispositivos culturais, jurídicos, políticos, (…) uma configuração histórica, marcada profundamente pelo processo imperial e seus prolongamentos pós-coloniais (…) nomeado com a expressão ‘cultura colonial’”? Afinal, afirmam os coordenadores da coletânea, “a França empreende a colonização na mesma época em que nasce a IIIª República”, e em sincronia se esboçam os fundamentos de uma cultura colonial que “se fixa duradouramente na opinião” e “atinge seu apogeu quando das comemorações do centenário da conquista da Argélia e da Exposição Colonial Internacional de 1931”. O agenciamento da propaganda desta cultura recorre a “poderosos suportes de difusão – literatura, canção, cabaré, propaganda, teatro, imprensa, exposições, espetáculos, cartões postais, cartazes, manuais escolares, livros, imagens fixas, cinema” (Blanchard, Lemaire e Bancel, 2008:14-15). Essa propaganda conduz às dimensões tanto descritiva como simbólica da colonização. Exemplo flagrante do esforço de propaganda consta no programa da Exposição Universal de 1889 em Paris, onde uma das atrações não deixa dúvidas quanto à intenção dos organizadores de exibir seres humanos como espécimes exóticos, verdadeiro “zoológico humano de negros, taitianos e Kanaks” (Blanchard, Lemaire, Bancel, 2008, p.18). O recurso a exposições apoiadas em teorias pretensamente científicas obedecia à intenção pedagógica de “vulgarizar o axioma da desigualdade das “raças” humanas e justificar em parte”, junto ao público de visitantes, “o domínio associado à colonização” (Lemaire e Blanchard, 2008:116) (15). A produção do “imaginário racializante do Outro, fundamentado na teoria científica da ‘hierarquia das raças’, seguia os progressos da antropologia física”, afirmam os autores, e sustentou “a edificação de um império colonial então em plena expansão”. Entre 1877 e 1931, foram realizadas “mais de 40 exposições etnológicas (…) no Jardim Zoológico de Aclimatação, sempre com sucesso. Esquimós, Lapões, Gaúchos, Argentinos, Núbios, Ashantis, Índios galibis, Cosacos… se apresentaram e serviram tanto como espécimes de estudos antropológicos como atração para o grande público.” Entre as duas guerras, “época do apogeu colonial”, “imagens estereotipadas” se impuseram; a mensagem valorizava a colonização, pois dava nascimento “a une Plus Grande France”; igualava-a ao Império britânico – “‘uma França onde o sol jamais se punha”, onde as colônias se dispunham como prolongamentos da metrópole (Lemaire e Blanchard, 2008:16). Procedimento arrogante e persistente, embora “a Grande Guerra constituísse uma ruptura com a descoberta da alteridade encenada pelas populações colonizadas, com a chegada maciça de contingentes de soldados e trabalhadores magrebinos, indochineses ou africanos”. Com a presença dos recém-chegados, “o ‘selvagem’ se tornou ‘o filho adotivo’ da ‘Plus Grande France’”, e modificou profundamente um dos aspectos mais importantes da cultura colonial: “as barreiras físicas então desapareceram, porém a distância cultural manteve-se real no espírito de todos” (16). Talvez tenha sido, justamente, essa nova representação simbólica da figura do Outro o estímulo para Henri Berr, responsável pela Coleção “L’évolution de l’humanité”, publicar, em 1937, o livro de Georges Hardy La Politique Coloniale et le Partage de la terre aux XIXe et XXe siècles 17. O autor na época ocupava os cargos de Reitor da Academia da Argélia e de Diretor honorário da Escola colonial, compõe um balanço do que Henri Berr denominou le fait historique de la colonisation. Hardy repassa a colonização desde a antiguidade fenícia e greco-romana, porém é, sobretudo, a ação colonizadora dos séculos XIX e XX na África, Ásia e Oceania que merece maior atenção. Período em que Rússia, Bélgica, Alemanha, Itália, Estados-Unidos e Japão se lançam à partilha do mundo. Seu livro traz 14 mapas que surpreendem pela dimensão e rapidez da progressão da weltpolitik. Antes de iniciar sua exposição, Hardy coloca lado a lado “o mundo colonial em 1815 e o mundo colonial em 1937”, dois mapas elucidativos da enorme parte do mundo ocupada por nações estrangeiras no decorrer do século XIX e início do XX. Nele, o autor reconhece terem os conflitos de interesse, de hábitos e de ideias permeado a ocupação colonial, pacífica ou sangrenta, e gerado debates sobre sua legitimidade. O levantamento das motivações da ação colonial pode sugerir uma atitude crítica de sua parte: “o apetite da expansão comercial, a necessidade de buscar produtos alimentares ou matérias primas e abrir mercado para indústria metropolitana”, ou, acrescenta oportunamente, “o que parece dominar as origens da colonização contemporânea, (…) as intenções propriamente políticas” (Hardy, 1937:453). Hardy empreende inclusive um balanço dos custos externos e internos da empresa colonizadora e se indaga se após um século de experiência, as colônias valiam realmente tantos sacrifícios e problemas. Seu balanço se inclina, entretanto, para o lado positivo, ao concluir ser a colonização “antes de tudo, uma ‘escola de energia’” e finalizar sua análise afirmando: “Esta grande obra de interpenetração do mundo, esta fecundação de raças que o isolamento esterilizava, foi a Europa que, em menos de cem anos, realizou por sua conta. Que tenha cometido erros, que às vezes tenha abusado de sua ascendência e mesmo cedido a instintos deploráveis, deve-se lhe perdoar, eram sem dúvida inevitáveis…”(Hardy, 1937;466-467). Justificativa exemplar da ação colonizadora. A arrogância colonial nos textos literários For Augustine the eye was an organ of conscience, as it was for Plato; indeed, the Greek work for ‘theory” is theoria, wich means “look at,” “seeing”, or – in the modern usage that combines physical experience of light with understanding – “illumination” Richard Sennett (18) Foi a audaciosa tarefa de prefaciar o livro de Marion Brepohl,Imaginação Literária e Política. Os Alemães e o Imperialismo,19 que me levou ao livro de Hardy, no intuito de ter acesso à voz do colonizador de grandes áreas ocupadas na África. Em seu livro Brepohl trouxe também vozes de colonizadores e de literatos ao expor a dimensão e a força dos textos ficcionais em apoio, estímulo e justificativa da ação colonizadora. Suas incursões por esses textos abriram-lhe os meandros da específica experiência colonizadora do Estado alemão e sua análise sensível e inteligente lhe permitiu aceder ao poder da escrita literária como propaganda e justificativa dos empreendimentos em terras africanas. Ato contínuo, a releitura do romance O sonho do celta, de Mario Vargas Llosa 20 foi incentivada pelo poder de sedução e convencimento do texto literário, detalhado na análise de Brepohl. Detive-me de modo muito atento ao poder de fixação de imagens e de percursos, no caso, históricos, da escrita ficcional. O sonho do celta ampliou a gama de relatos sobre países ocupados, ao aceder os meandros da “ação colonizadora” dos belgas no território do Congo e da empresa inglesa na Amazônia peruana. Nos dois casos, a extração do látex das seringueiras movia a presença de representantes desses dois países na África e na América do Sul. Permitiu também conhecer o porquê do discurso de Anatole France no protesto contra a França colonial, em 30 de janeiro de 1906: Oh! Sabemos muito bem que os Negros do Estado livre do Congo, os escravos de S.M. o rei dos Belgas são cruelmente torturados. Sabemos que na África, na Ásia, em todas as colônias, seja lá qual for o povo a que pertencem, levantam-se as mesmas queixas, os mesmos uivos de dor em direção ao céu surdo. Isto é o que se chama a civilização moderna. (…) Os Brancos só se comunicam com os Negros ou os Amarelos para sujeitá-los ou massacrá-los (21). (France, apud Marcel Merle. “L’anticolonialisme” in Ferro, Le livre Noir du Colonialism, 2003:635) Em contraponto à avaliação dos textos acadêmicos, a escrita literária de Vargas Llosa nos conduz por um percurso de ritmo alucinante. Na apresentação de situações documentadas e apreensões subjetivas, seu texto permite penetrar os meandros tortuosos e cruéis da ação colonizadora movida pelos interesses econômicos de um rei, Leopoldo II da Bélgica, proprietário exclusivo do Congo Belga, e pelos interesses similares da Peruvien Amazon Company, empresa inglesa cotada na Bolsa de Londres. Llosa refez esses caminhos por meio das anotações pessoais, cartas e relatórios oficiais de Roger Casement, diplomata irlandês a serviço do governo da Grã-Bretanha, redigidas entre 1903 e 1916, quando, após ser denunciado e condenado como traidor da pátria por militar pela independência da Irlanda, foi executado. (Llosa, 2011:254) (22). A longa pesquisa e o recurso à documentação, recolhida em viagens ao Congo, à Amazônia, Irlanda, Estados Unidos, Bélgica, Peru, Alemanha e Espanha, conferem ao relato literário de O sonho do Celta uma dimensão multifacetada. Llosa desenha um personagem cuja trajetória como cônsul o levou a vários lugares da África – Old Calabar, Nigéria, Lourenço Marques, atual Maputo, Moçambique, São Paulo de Luanda, Angola – e a São Paulo no Brasil, antes de assumir a tarefa de averiguar as denúncias de maus tratos dos nativos em territórios colonizados. De sua experiência no Congo Belga, iniciada em maio de 1903, e perante todos os horrores e crueldades por ele presenciados, seria a forma debochada das autoridades ao se referirem aos africanos e os tratarem como escravos o que lhe causou maior impacto. Em carta a sua prima Gee, Casement confessa ter sido acometido por um sentimento de desespero e desesperança: Acho que estou perdendo o juízo, querida Gee (…). Temo que, se continuar esquadrinhando a que extremos podem chegar a maldade e a ignomínia dos seres humanos, não escreva meu relatório. Estou à beira da loucura. Alguma coisa está se desintegrando na minha mente. (…) vou também acabar dando chicotadas, cortando as mãos e assassinando congoleses entre o almoço e o jantar sem o menor problema de consciência e nem perder o apetite. (Llosa, 2011:95). Uma atitude certamente generalizada e confirmada por Casement quando, ao indagar a um oficial se não lhe pesaria na consciência a morte de um garoto nativo submetido a chicotadas, este lhe respondeu: “Quando vim para o Congo, tomei a precaução de deixar a consciência no meu país” (Llosa, 2011:52). A despeito de todo o horror, ou talvez até mesmo estimulado pelas denúncias dos abusos cometidos por empresas europeias, somados à forma pela qual seu Relatório foi bem acolhido pelo Foreign Office e demais autoridades inglesas, Casement aceitou uma nova empreitada: a de investigar a denúncia de maus tratos e mesmo de escravização de trabalhadores peruanos nativos a serviço da Peruvien Amazon Company, em Iquitos, onde chega no final de agosto de 1910 (Llosa, 2011:100,172,125). Os horrores já vistos no Congo repetiam-se; as mesmas atrocidades eram toleradas pelo complacente cônsul inglês. Sua investigação quase lhe custou a vida, tanto ao ser acometido por doenças, mas sobretudo pela crescente e preocupante hostilidade do administrador e seus asseclas. Quando indaga a um administrador da companhia sobre denúncias de que “matava os Índios por puro esporte”, dele recebeu uma resposta de insolente ironia: “Protesto porque nestes últimos dois meses só morreram uns quarenta índios na minha estação” (Llosa, 2011:139). A forma mais insidiosa de arrogância, a arrogância silenciosa, Casement a encontrou nos escritórios da Peruvian Amazon Company em Salisbury House, no coração financeiro de Londres. Um lugar espetacular, com paisagem de Gainsborough na parede, secretárias de uniforme, salas atapetadas, sofás de couro. E, no outro extremo do mundo, “no Putumayo, huitotos, ocaimas, muinanes, nonuyas, andoques, rezigaros e boras ninguém sequer mexia uma palha…”. (Llosa, 2011:192) Aos horrores da colonização europeia em terras africanas e sul-americanas acrescenta-se a “descoberta” por Casement da situação da Irlanda, seu país. E se indaga: “Por acaso a Irlanda também não é uma colônia, como o Congo?” (Llosa, 2011:96). Recordações infantis trazem à memória seu tempo de estudante: “Na Ballymena High School (…) as crianças e adolescentes eram levados a pensar que a Irlanda era um país bárbaro e sem passado digno de memória, elevado à civilização pelo ocupante, educado e modernizado pelo Império que o despojou da sua tradição, de sua língua e da sua soberania.” (Llosa, 2011:119) Llosa desenvolve pela escrita um movimento de persuasão racional com riqueza de detalhes de situações vivenciadas por Casement no Congo Belga, em Iquitos no Peru e no próprio Reino Unido. Compõe uma escrita saturada de sentimentos de horror e de compaixão. Sua maestria literária revela ao leitor os sentimentos, medos, entusiasmos e arrependimentos que perpassaram a trajetória de Roger Casement. Nos conduz a uma posição de cumplicidade com os colonizados em um texto no qual a arrogância colonial se apresenta tanto na dimensão descritiva ou material, como substantiva e simbólica. Talvez sua maior maestria esteja em, por ser peruano de nascimento, assumir o “lugar” de autor que lhe permitiu tecer a figura do personagem Casement em seu percurso de formação da autoconsciência na condição de colonizado, esgarçando aos poucos a própria arrogância de britânico colonialista, ferido pelo aguilhão da ação “colonizadora” dos europeus. Permitiu-nos compartilhar a denúncia de algo que se situa em um tempo passado e em terras afastadas de nós, mas, sobretudo, sublinho enfaticamente, que diz respeito a uma questão sensível, dramaticamente atual, não só, mas muito em especial, à Europa. O reverso das colônias – fronteiras de limites “incertos” Certamente, vagas de imigrantes provenientes de diversos países e culturas aportam já há várias décadas em países europeus, nos Estados Unidos e em menor escala no Brasil; causam apreensão e problemas complexos, cujas avaliações se apresentam contraditórias. No início desta década, filósofos alemães, franceses e portugueses se propuseram a refletir sobre o significado de se “viver na Europa hoje” particularmente atentos às essas vagas de imigração “com frequência originárias da África francófona e lusófona, e cada vez mais, também do Brasil”.23 Publicados em 2010, seus textos analisam sob diversas perspectivas a complexa e difícil coexistência de países da Comunidade Europeia com a população oriunda de suas antigas colônias. Menos do que os dados estatísticos, o que interessa para o argumento que desenvolvo neste texto é o campo conceitual, eixo das análises dos autores: a origem europeia, na Grécia clássica, das palavras cosmopolis, cosmopolíticos, cosmopolitès, nas quais “a ideia de “política” se coloca em relação direta com da “constituição de cidadania” (politeia)”. Escolhi o artigo de Étienne Balibar “Cosmopolitisme, internationalisme, cosmopolitique” 24 por constituir um ensaio de reunir várias tentativas de reflexão e compreensão desse viver em meio a múltiplas culturas no início do século XXI. O autor expõe abertamente duas posições dos Europeus sobre o cosmopolitismo: “uma diz respeito à crítica das tradições dos cosmopolitismos e do internacionalismo (…) herdados dos últimos dois séculos de filosofia e política democráticas; a outra busca refletir novamente sobre a questão da democratização das fronteiras, considerada a tendência atual das políticas de Estado (…) na busca de sobrepor a categoria “estrangeiro” à de “inimigo’” (Balibar, 2010 :44). Balibar expõe uma dimensão sensível e contraditória da democratização das fronteiras frente aos desafios da nova experiência de convívio multicultural ao dizer que o “componente do imperialismo, dos antigos imperialismos coloniais e da dominação” fora substituído por “um néo-imperialismo fundado na dominação financeira e na hegemonia comercial, na arbitragem e na intervenção ‘humanitária’, etc.”, e inclui nesse jogo os Estados-Unidos. Para superar a situação, evoca a possibilidade de um “cosmopolitismo inclusivo oposto ao cosmopolitismo exclusivo/excludente”. Em sua opinião, este deveria ser um “cosmopolitismo ativo” direcionado a um projeto de nova esfera pública mundial oposta à sociabilidade das redes; ou seja, afirma, “um cosmopolitismo que assuma a irredutibilidade das diferenças, o reconhecimento mútuo das singularidades, que aceite preservar ou reconstituir a figura do ‘estrangeiro’” (Balibar, 2010 :45-46). Apoiado em noções de Zygmunt Bauman, Balibar propõe reatar a ideia de “tradução entre as culturas”, que a seu ver provém de certo discurso pós-colonial, à de cidadania transnacional. Dessa maneira, afirma citando Bauman, “a universalidade não é a antítese das diferenças, ela não pressupõe ‘homogeneidade’ ou ’pureza’ culturais. (…) A universalidade nada mais é do que a capacidade de comunicação e compreensão mútua, (…) com o sentido de saber como ligarem-se entre si, (…) e face aos outros.” Para a União Europeia, sugere “instituir uma cidadania de residência de modo a unir o ‘país legal’ ao ‘país real’; ou seja, “conferir o direito ao voto para os ‘residentes permanentes’ de cada país (…) um modelo de diáspora da cidadania”. Em suma, Balibar oferece argumentos importantes para uma profunda reflexão ao retomar palavras de Hannah Arendt em sua proposta de uma cidadania “em termos de direito de ‘cité’ ou de direito de residir na ‘cité’ com os direitos da ‘cité’, uma ‘citoyenneté partagée’” (Balibar, 2010:37,46-47). Sem dúvida a proposta de Balibar seduz pela extensão bem intencionada do acolhimento na União Europeia de pessoas oriundas de países e culturas diversas, até mesmo internas à própria Europa. Aceitar a presença dos imigrantes e conferir-lhes a condição de participantes do que denomina ‘pais legal’ conduz à noção de cidadania não excludente. Entretanto, resta uma questão: estaria implícita em sua proposta uma cidadania democrática, entendida democracia nos termos comtemporênos? A meu ver, em suas palavras algo parece se manter como arrogância residual, silenciosa que, talvez, de tão naturalizada passa pouco perceptível a ele e a seus companheiros de coletânea: o eurocentrismo presente em uma reflexão autoreferida para qual a base conceitual ainda se apresenta na figura do Outro. Notas: Arendt, Hannah. The Origins of Totalitarianism. New York, Meridian Books, Inc., 1958, p.124 Esta tipologia se inspira livremente na proposta por Hanna Fenichel Pitkin, The Concept of Representation, Berkeley, University of California Press, 1967, apud Déloye. No original: “In contrast to true imperial structures, where the institutions of the mother country are in various ways integrated into the empire, it is characteristic of imperialism that national institutions remain separate from colonial administration although they allowed to exercise control. The actual motivation for this separation was a curious misture of arrogance and respect: the new arrogance of the administrators abroad faced “backward populations” or “lower breeds” found its correlative in respect of old-fashioned statesmen at home who felt that nation had the right to impose its law upon a foreign people. It was in the very nature of the things that the arrogance turned out to be a device for rule, while the respect, which remained entirely negative, did not produce a new way for peoples to live together, but managed only to keep the ruthless imperialist rule by decree within bounds”. (Arendt 1958, p.126). Origens do totalitarismo. Antissemitismo, imperialismo, totalitarismo, São Paulo: Companhia das Letras, 2012. Ferro, Marc Le livre noir du colonialisme XVIe – XXIe siècle: de l’extermination à la repentance, Paris: Robert Laffont, 2003. No original : “1) s’établir dans un pays, genéralement dans un pays sous-développé, loin de son propre pays, et développer ses ressources agricoles et autres: les Anglais et les Hollandais colonisèrent l’Afrique du Sud. 2) Établir des personnes dans une colonie en vue d’en débarasser la mère patrie, dans l’espoir qu’elles seront plus utiles dans le pays neuf: on nous enjoint d’envoyer nos criminels et nos indérisables coloniser des terres étrangères”.A situação colonial, ou a arrogância do colonizador No original : “Nous sommes de toute évidence un peuple qu’ils [les colons] combattirent et conquirent (…) On refuse de nous reconnaître en tant que groupe distinct de personnes – le peuple aborigène issu de cette terre. Quand la survie d’un peuple est menacée, il contre-attaque.(…) mais il n’était pas de l’intérêt du Ministère de l’Intérieur britannique de reconnaître que les tribus aborigènes formaient une nation ni de leur accorder un statut en conséquence. Le peuple fut massivement assassiné, violé, mutilé et dépossédé de ses terres tribales” au cours des deux siècles postérieurs à 1788. “Aujourd’hui, nous constituons la fraction la plus pauvre du pays”. No original : “traiter le monde et les hommes qui l’habitent comme des étendues désertiques où on pouvait massacrer les peuples, les piller et les asservir”. No original : “ouvertement raciste aussi bien contre les juifs que contre les Noirs”. O artigo de Catherine Coquery-Vidrovitch – “Le postulat de la supériorité blanche et de l’infériorité noire” traz informações preciosas sobre a antiga e longa persistência de opiniões preconceituosas na figuração do Outro desde os antigos gregos, in Ferro, Marc 2003, op.cit., pp.646-685. No original: “Leurs yeux ronds, leur nez épaté, leurs lèvres toujours grosses, leurs oreilles différemment figurées, la laine de leur tête, la mesure même de leur intelligence, mettent eux et les autres espèces d’hommes des différences prodigieuses”. Remeto a Antonello Gerbi. O Novo Mundo. História de uma polêmica (1750-1900). São Paulo: Companhia das Letras, 1996. No original: “I advance it therefore as a suspicion only, that blacks, wether originally a distinct race, or made distinct by time and circunstances, are inferior to the whites in the endowements both of body and mind”. (Catherine Coquery-Vidrovitch (p. 664) apud John Stockdale. Notes on the State of Virginia, 1787). Tocqueville consagrou o cap. X de De la Démocratie en Amérique, para avaliar a posição das “três raças” nos Estados Unidos: “On découvre en eux, dès le premier abord, trois races naturellement distinctes, et je pourrais oreque dire ennemies. L’éducation, la loi, l’ origine, et jusqu’ à la forme extérieure des traits, avaientre élévé entre elles une barrière presque insurmontable. (…) Parmi ces hommes si divers, le premier qui attire les regards, le premier en lumière, en puissance, en bonheur, c’est l’homme blanc, l’Européen, l’homme par excellence ; au-dessus de lui paraissent le nègre et l’Indien. […] Ne dirait-on pas, à voir ce qui se passe dans le monde, que l’Européen est aux hommes des autres races ce que l’homme lui-même est aux animaux ? Ils les fait servir à son usage, et quand il ne peit les plier, il les détruit. […] des Áfricains ont perdu presque tous les privilèges de l’humanité ! Le nègre des États-Unis a perdu jus’u’au souvenir de son pays ! […] Le nègre n’a point de famille… […] il a perdu jusqu’à la proprieté de sa personne (…) L’Indien, au contraire, a l’imagination toute remplie de la prétendue noblesse de son origine. Il vit et meurt au milieu de ces rêves de son orgueil. Loin de vouloir plier ses moeurs aux nôtres, il s’attache à la barbarie comme un signe distinctif de sa race… […] Toutes les tribus indiennes qui habitaient autrefois le territoire de la Nouvelle-Angleterre, les Narragansetts, les Mohikans, les Pecots, ne vivent plus que dans les souvenir des hommes. […] A mesure que les indigènes s’éloignent et meurent, à leur place vient et grandit sans cesse un peuple immense.” in Tocqueville, Alexis. De la Démocratie en Amérique, livre 1 de la Première édition historique-critique revue et augmentée par Eduardo Nolla, Paris : Vrin, 1990, pp. 246-250 Edição brasileira A democracia na América, Belo Horizonte : Itatiaia ; São Paulo : Ed. USP, 1977 (pp. 243-247). No original: “The civilized races of man will almost certanly exterminate and replace the savage races throughout the world.” Exibition, exposition, médiatisation et colonies in Culture coloniale en France. De la Révolution française à nos jours. Blanchard, Pascal; Lemaire, Sandrine et Blancel, Nicolas (dir.), Préface de Gilles Boëtsch, CNRS Éditions, 2008. Exibition, exposition, médiatisation et colonies in Culture coloniale en France, op. cit, p. 115. Sandrine Lemaire et Pascal Blanchard. “Exibitions, expositions, médiatisation et colonies (1870-1914)” in Lemaire e Blanchard, 2008:111-119. Hardy, George. La Politique Coloniale et le Partage de la terre aux XIXe et XXe siècles. Paris: Albin Michel, 1937. Sennett, Richard. The Conscience of the Eye. The Design and Social Lifes of Cities, New Yor/London : W.W.Norton & Company,1990, p.8. Brepohl, Marion. Imaginação Literária e Política. Os Alemães e o Imperialismo.1880/1945, Uberlândia : EDUFU, 2010. Vargas Llosa, Mario. O sonho do celta. Rio de Janeiro: Objetiva, 2011. No original: “Oh ! Nous savons bien que les Noirs de l’État libre du Congo, les esclaves de S.M. le roi des Belges ne sont pas moins cruellement torturés. (…) C’est ce qu’on appelle la civilisation moderne. (…) Les Blancs ne communiquent avec les Noirs ou les Jaunes que pour les asservir ou les massacrer”. Hannah Arendt comenta que “Os antigos ‘fundadores de impérios’ britânicos, confiando na conquista como método permanente de domínio, jamais conseguiram incorporar à vasta estrutura do Império Britânico ou da Comunidade Britânica de Nações os seus vizinhos mais próximos, os irlandeses. Essa antiga ‘possessão’ denunciou unilateralmente sua condição de domínio (em 1937) e rompeu todos os laços com a nação inglesa quando se recusou a participar da guerra. A conquista permanente (…) despertou (…) nos irlandeses o espírito de resistência nacional.” in Origens do Totalitarismo, op.cit., p.194. Vivre en Europe. Philosophie, politique et science aujourd’hui (Bertrand Ogilvie, Diogo Sardinha, Frieder Otto Wolf, orgs.). Paris: L’Harmanttan, 2010. Balibar, Étienne. Cosmopolitisme, internationalisme, cosmopolitique, Vivre en Europe, op. cit., pp. 19-49. Referências: Arendt, Hannah. The Origins of Totalitarianism. New York, Meridian Books, Inc., 1958; Edição brasileira: Origens do Totalitarismo. Tradução Roberto Raposo, São Paulo: Companhia das Letras, 2012. Blanchard, Pascal; Lemaire, Sandrine et Blancel, Nicolas (dir.), Préface de Gilles Boëtsch,, orgs. Culture coloniale en France. De la Révolution française à nos jours. CNRS Éditions, 2008. Bancel, Nicolas, Blanchard, Pascal, Boëtsch, Gilles, Deroc, Eric e Lemaire, Sandrine, (orgs.), Zoos Humains. De la vénus hottentote aux reality shows. Paris, La Découverte, 2002. Brepohl, Marion. Imaginação Literária e Política. Os Alemães e o Imperialismo. 1880/1945, Uberlândia : EDUFU, 2010. Ferro, Marc Le livre noir du colonialisme XVIe – XXIe siècle: de l’extermination à la repentance. Paris: Robert Laffont, 2003. Gerbi, Antonello. O Novo Mundo. História de uma polêmica (1750-1900), São Paulo, Companhia das Letras, 1996, Gobineau. Essai sur l’inégalité des races humaines. Ed. Librarie de Paris Firmin-Diderot, Paris: 1983. Hardy, George. La Politique Coloniale et le Partage de la terre aux XIXe et XXe siècles. Paris: Albin Michel, 1937. Ogilvie, Bertrand; Sardinha, Diogo; Wolf, Frieder Otto, orgs. Vivre en Europe. Philosophie, politique et science